Denúncia traz detalhes sobre a relação direta de esposa e filhos de Marcinho VP com lideranças do Comando Vermelho como Doca, Abelha e Pezão
A denúncia do Ministério Público Estadual sobre lavagem de dinheiro atribuída ao traficante Marcinho VP, sua mulher e seus filhos, familiares e demais integrantes do Comando Vermelho aponta que a esposa do chefão da facção e seus filhos mantinham relação direta, íntima e recorrente com lideranças da organização, como Doca, Abelha, Pezão, 2D e Sam da Cidade de Deus.
Segundo a denúncia, obtida pela reportagem, as interações envolviam a intermediação de favores, a liberação de acesso a áreas controladas pela facção, solicitações de recursos financeiros e o recebimento de valores sabidamente ilícitos.
A mulher de Marcinho VP recorria diretamente a Doca e Abelha para autorizar a entrada de terceiros nas comunidades e para obter dinheiro, inclusive uma quantia solicitada a Doca para o pagamento de uma fatura de cartão de crédito.
Há menções recorrentes à obtenção de valores periódicos, com referências a quantias recebidas semanalmente. Pelo teor das conversas, a origem desses recursos estaria ligada ao tráfico de drogas e a outras práticas delitivas exploradas pela quadrilha.
Os filhos do casal atuavam na gerência dos valores atribuídos pela facção a Marcinho VP. Eles são mencionados em diversos trechos da denúncia, inclusive em conversas nas quais afirmam ter falado diretamente com criminosos como Doca e Abelha e em outras nas quais recebem valores de origem desconhecida.
A denúncia aponta ainda que a esposa de Marcinho VP possuía bens e empreendimentos em territórios controlados pela facção.
Foi identificado que ela possui um contêiner na Estrada do Itararé, no Complexo do Alemão, e que buscava, com auxílio de Doca, um local adequado para sua instalação.
Em conversa com a filha, ela foi questionada sobre ter retirado uma quantia em dinheiro do "PV", sigla utilizada para se referir à comunidade Pavão-Pavãozinho, em Copacabana, também controlada pela facção.
A denúncia menciona ainda a administração de bens pertencentes a Marcinho VP. Um interlocutor chamado "Alberto" relatou a venda de terrenos em nome do chefão do CV, o que levanta questionamentos sobre como um indivíduo recluso há mais de duas décadas poderia manter propriedades e negócios.
Em outro diálogo considerado relevante para a investigação, a mulher de VP fala com Magrão e pede que ele explique a 2D que ela já havia conversado por telefone com Pezão e que iria precisar de uma quantia para um "chá de bebê" e para comprar móveis para sua filha.
Em seguida, orientou Magrão a informar o valor que deveria ser disponibilizado por Pezão e esclareceu que a quantia deveria, posteriormente, ser descontada de Nego, outra alcunha atribuída a Marcinho VP.
Marcinho utilizava o dinheiro da caixinha da facção para fazer repasses aos familiares, autorizando investimentos, a compra de imóveis e a realização de obras.
O dinheiro atribuído a ele, mencionado nas conversas como "valor do seu pai" e "negócio que vou pegar com meu pai", era utilizado para financiar empreendimentos e despesas familiares.
Segundo a denúncia, Marcinho, no período entre 2022 e 2025, teria recebido ao menos R$ 3 mil em espécie por mês, por meio de repasses efetuados por lideranças da facção.
A esposa de VP era considerada a gestora financeira do núcleo, sendo apontada como responsável central pelos atos de ocultação e dissimulação patrimonial e financeira.
Como forma de ocultação patrimonial, ela efetuou, entre 11 de outubro de 2022 e 22 de março de 2023, a compra do imóvel onde funcionava o estabelecimento comercial "Casa de Vidro". Recebeu os aluguéis, mas manteve o imóvel em nome de outra pessoa para evitar investigação.
Ela também administrou imóveis do tipo "kitnets" no Complexo da Penha, financiados com dinheiro do tráfico, e comprou de maneira velada propriedades de fazendas localizadas em Iguaba/RJ e Araruama/RJ, com a finalidade de blindagem patrimonial.
Na movimentação de valores ilícitos, recebeu regularmente dinheiro em espécie de Doca, Pezão e 2D; solicitou diretamente valores, com frases como "manda o D2 entregar" e "vê quanto o P vai mandar"; determinou a realização de depósitos em espécie para pagar imóveis; e ordenou a realização de PIX, transferências e pagamentos por meio de "testas de ferro".
Ela determinou que Magrão pagasse contas, fizesse PIX e transferências; utilizou contas de terceiros para movimentar dinheiro dos filhos; e exigiu que os traficantes debitassem valores da conta do marido.
Ela também recebeu dinheiro em espécie e destinou quantias para custear a realização de um "chá de bebê", a aquisição de móveis, o pagamento da fatura de seu cartão de crédito e um valor mensal para repassar ao marido.
Os filhos eram gestores financeiros secundários. Recebiam valores ilícitos em contas próprias e de terceiros.
Eles aplicaram dinheiro do tráfico em obras para a construção de "kitnets"; negociaram contas, contratos, pagamentos e criptomoedas; além de realizarem viagens, pagamentos de despesas e compra de serviços com valores ilícitos.
Marcinho VP também recebia uma quantia mensal no presídio no período entre 2022 e 2025.
Um dos filhos de Marcinho VP, Oruam, era beneficiário direto e receptor de dinheiro ilícito e se utilizava da carreira musical para dissimular ganhos oriundos das atividades ilícitas exploradas pela organização.
Ele recebeu dinheiro de Doca, Urso, entre outros traficantes, para despesas pessoais, viagens, festas e investimentos.
Também confessou que os valores vieram do pai, mesmo ele estando preso há mais de vinte anos. Utilizou suas atividades artísticas, como shows e Instagram, além de criptomoedas, como fachada para movimentações sem origem comprovada.
Oruam participou de investimentos, como whiskeria, loja de açaí e barracas, com dinheiro não declarado, e delegou ao irmão e a operadores parte das movimentações financeiras para evitar rastreamento.
Magrão entregava dinheiro de Pezão e 2D para a esposa de Marcinho. Ela repassava montantes em espécie para despesas, festas e compras e atuava como ponte financeira entre as lideranças operacionais do tráfico e a família do chefão do CV.
Um operador financeiro cedia suas contas bancárias para a movimentação dos valores, retinha uma porcentagem como "comissão" para participar do esquema e ajudava a fragmentar e mascarar as transações financeiras.
Doca, Pezão, 2D e Sam obtinham o proveito dos crimes praticados pela organização criminosa e repassavam uma parcela para Marcinho VP.







Comentários