Grupos Femininos de Negócios no WhatsApp: estamos realmente construindo redes… ou apenas acumulando barulho? Por Kátia Teixeira
- jornal bilhões

- 15 de mai.
- 4 min de leitura

Faço parte de mais de 160 grupos femininos de negócios no WhatsApp e, depois de anos observando comportamentos, padrões, lideranças, conexões, vendas e também muitos egos, preciso dizer uma verdade que talvez incomode: muitos grupos deixaram de ser ambientes estratégicos e viraram apenas depósitos de posts desesperados por atenção.
É uma enxurrada. Uma publicação atrás da outra. Sem contexto, sem organização, sem conexão, sem leitura, sem relacionamento e, principalmente, sem resultado. A pessoa posta, respira aliviada e pensa: “Pronto… já fui vista.” Mas será mesmo? Na prática, ela apenas passou correndo na timeline de outras centenas de mulheres fazendo exatamente a mesma coisa.
Talvez esse seja um dos maiores problemas dos grupos atuais: a falsa sensação de produtividade. Muitas mulheres passam horas dentro dessas redes acreditando que estão fazendo networking, quando na verdade estão apenas consumindo tempo em ambientes que não geram vendas, não geram parceria, não geram conexão verdadeira e, principalmente, não geram resultado mensurável.
Outro ponto curioso é o excesso de textos gigantescos, muitas vezes feitos integralmente por inteligência artificial, sem personalidade, sem emoção e sem objetivo claro. Existe tanto conteúdo sendo despejado ao mesmo tempo que ninguém mais consegue absorver nada. E aí nasce um fenômeno perigoso: mulheres falando sem serem escutadas.
Mas talvez a reflexão mais delicada esteja no comportamento de algumas lideranças desses grupos. Muitas administradoras confundem liderança com posse. Criam uma espécie de território emocional, proíbem divulgação de outros grupos, controlam movimentos, geram tensão e, às vezes, até expulsão. Como se networking fosse cárcere privado.
E aqui entra uma pergunta importante: desde quando conexão virou aprisionamento?
Rede boa não é a que segura pessoas. Rede boa é a que multiplica possibilidades.
O mais curioso é que a maioria esmagadora desses grupos sequer monetiza de verdade. Não existe faturamento relevante, não existe estratégia estruturada, não existe plano de crescimento coletivo. Mas existe o ego de “ser dona da rede”. E isso faz muitas oportunidades morrerem antes mesmo de nascer.
Diversas vezes eu mesma me ofereci para levar conteúdo gratuito para grupos femininos. Palestras, estratégias, experiências reais de mercado, estudos sobre posicionamento, networking, vendas, palco, autoridade. E quase sempre vinha a pergunta: “Mas você vai vender alguma coisa no final?”
E eu respondia:
“Simmmmm… claro.”
Porque na minha cabeça isso sempre pareceu normal, coerente, saudável e até indispensável. Afinal, somos ou não somos mulheres de negócios? Qual o problema de entregar conteúdo espontaneamente, agregar valor e deixar o livre arbítrio decidir quem quer comprar depois?
Isso não deveria assustar ninguém. Isso deveria representar maturidade empresarial. Mas infelizmente muitos grupos ainda tratam venda como pecado enquanto vivem reclamando que não faturam.
E existe outra questão extremamente importante: grupo de WhatsApp é como a casa de alguém. Você não entra na casa de uma pessoa abrindo a geladeira, colocando o pé na mesa de centro e mudando os móveis de lugar. Então quando entrar num grupo, cumprimente, observe, entenda a dinâmica, converse com a administradora, pergunte as regras e respeite o ambiente. E se aquele espaço não fizer sentido para você, agradeça e se retire. O que não dá é querer entrar impondo regras na casa alheia.
Aliás, existe uma observação muito importante: o grupo sempre reproduz o comportamento da liderança. Se a administradora for estratégica, acolhedora, respeitosa e organizada, o grupo tende a seguir esse padrão. Mas se ela for arrogante, agressiva, antipática ou viver numa disputa de ego, rapidamente as participantes também se sentem autorizadas a agir da mesma forma.
Em muitos grupos vejo mulheres tratando outras mulheres com extrema grosseria, ironias desnecessárias, disputas silenciosas e pequenas humilhações públicas. Uma espécie de wollying velado travestido de liderança. E quase sempre o primeiro exemplo vem justamente da própria condução do grupo.
Eu estudo grupos de WhatsApp há anos e afirmo com tranquilidade: essa é uma das ferramentas mais poderosas de conexão da atualidade. Mas do que adianta ter uma Ferrari se não existe habilidade para pilotar? Algumas pessoas ficam tão preocupadas em controlar pequenas situações que deixam escapar oportunidades gigantescas. Cuidam da formiguinha enquanto deixam o elefante passar diante dos olhos.
Os grupos que realmente performam possuem comportamentos completamente diferentes. Eles têm organização de conteúdo, propósito nas conversas, regras claras de convivência, respeito, incentivo ao relacionamento UM A UM, cultura de troca genuína, incentivo à parceria, disciplina e, principalmente, mensuração de resultado. Porque grupo sem resultado vira apenas consumo de tempo fantasiado de networking.
E aqui faço questão de citar um exemplo de sucesso que acompanho de perto: o Grupo Confraria das Empretecas. Um grupo que existe há mais de 8 anos, formado por 8 administradoras, onde todas as mais de 200 integrantes participaram do Seminário EMPRETEC, do Sebrae — e essa é uma condição para fazer parte da rede. Isso cria identidade, linguagem comum, maturidade empreendedora e senso de pertencimento. Ali existe cordialidade, sororidade, respeito, troca verdadeira e resultado comprovado. Não é apenas um grupo para postar por postar. É uma rede com história, convivência, propósito e construção coletiva. Talvez seja exatamente isso que falte em muitos grupos: menos volume, mais curadoria; menos ansiedade, mais consistência; menos disputa, mais construção.
É preciso parar de medir sucesso pela quantidade de participantes e começar a medir pelo impacto gerado. Quem vendeu? Quem fechou parceria? Quem encontrou clientes? Quem gerou negócios? Quem cresceu? Quem conseguiu apoio? Quem multiplicou oportunidades?
Talvez esteja na hora de centenas de mulheres repensarem suas estratégias digitais. Menos ansiedade para aparecer. Mais inteligência para construir. Menos desespero por atenção. Mais intenção. Menos disputa de ego. Mais expansão coletiva.
Porque no final das contas, não adianta ter o talento de reunir pessoas e não ter o talento de fazê-las crescer.
Quem ganha quando eu ganho?
Todas as mulheres que entenderam que networking não é disputa de palco. É construção de pontes.
*Sobre a autora*
Katia Teixeira é empresária há mais de 40 anos, mentora das mentoras, conferencista ONU, cursou em Harvard sobre justiça e ética, escritora com livros lançados no LOUVRE-Paris e especialista em networking e netweaving. Idealizadora do Instituto QDM – Quais de Mim Você Procura, tornou-se referência nacional e internacional em projetos voltados ao apoderamento feminino, liderança, palco, comunicação, conexões estratégicas e internacionalização de mulheres. Pioneira ao trazer para o debate brasileiro o conceito de WOLLYING — a violência psicológica e relacional entre mulheres — transformou o tema em um movimento global de conscientização, levando essa pauta a debates internacionais e ambientes ligados à ONU Comissão sobre o Status da Mulher (CSW), em Nova York. Katia acredita que conexões verdadeiras devem gerar crescimento coletivo, oportunidades reais e legado para outras mulheres.



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