Como identificar quando a pressão por desempenho está afetando os estudantes?

Ansiedade, estresse e medo de decepcionar podem estar por trás de comportamentos que parecem apenas dedicação aos estudos; especialista explica quais sinais merecem atenção
Uma prova pode durar dois dias, mas a cobrança para se sair bem começa bem antes disso e, em muitos casos, não acaba quando a nota sai. Ela reaparece na comparação com o colega que acertou mais questões, na culpa de tirar algumas horas para descansar, na sensação de que nunca é o suficiente.
Há também o peso do significado que o próprio aluno dá ao resultado. Sem que pais ou professores precisem cobrar nada, cada prova pode virar, na cabeça do estudante, um veredito sobre se ele é ou não capaz.
Uma pesquisa do Instituto Federal do Rio Grande do Sul, publicada em 2026, ajuda a entender por que desempenho acadêmico e saúde mental não podem ser tratados como assuntos separados. O levantamento acompanhou 391 estudantes do ensino médio da instituição, no sul do país, cruzando sintomas de depressão, ansiedade e estresse com as médias escolares. O resultado: 16,2% dos participantes apresentaram sintomas graves ou muito graves de depressão, 15,3% de ansiedade e 9,1% de estresse. Quando os pesquisadores olharam para o desempenho, encontraram uma associação entre sintomas de depressão e estresse e notas mais baixas.
A pesquisa não prova que uma coisa causa a outra, mas deixa claro que saúde mental e rendimento escolar caminham juntos.
Victor Cornetta, especialista em desenvolvimento de estudantes e fundador da Kaizen Mentoria, aponta um sinal de alerta específico: quando o esforço para melhorar deixa de vir de uma estratégia e passa a ser uma tentativa de controlar o medo de fracassar.
“O jovem acredita que só estará seguro se tiver certeza de que vai acertar, ele pode começar a estudar não para aprender, mas para diminuir a ansiedade de não saber o resultado. É aí que comportamentos aparentemente positivos, como aumentar excessivamente as horas de estudo ou revisar o mesmo conteúdo várias vezes, podem esconder uma relação pouco saudável”, afirma.
Alguns comportamentos costumam indicar que a pressão passou do estímulo para o problema: frustração desproporcional mesmo diante de notas boas, medo de contar aos pais sobre um resultado abaixo do esperado, comparação constante com colegas, culpa ao descansar. Vale prestar atenção também no aluno que passa a evitar questões mais difíceis por medo de errar, ou que alterna longos períodos de estudo com fases de procrastinação.
Para Cornetta, essa procrastinação costuma ter relação direta com a forma como o estudante enxerga o próprio desempenho.
“Quando uma tarefa é percebida como uma situação em que existe grande chance de fracasso, adiá-la pode ser uma forma de evitar esse desconforto. O problema é que o alívio é momentâneo e pode fazer a ansiedade aumentar, levando-o a se cobrar ainda mais”, explica.
A forma como a família e a escola reagem aos resultados também molda como o jovem lida com o próprio desempenho. É preciso entender as dificuldades e o que pode ser ajustado, sem transformar uma nota abaixo do esperado em motivo de culpa.
“Cobrar responsabilidade e estabelecer expectativas faz parte da formação. O problema é quando ele passa a associar seu valor pessoal ao resultado. Família e escola podem ajudar conversando sobre o processo, e não apenas sobre a nota, além de observar mudanças de comportamento, como isolamento, irritabilidade, alterações no sono ou recusa em ir à escola. Se esses sinais persistirem, é importante buscar apoio especializado”, conclui Cornetta.




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