Descobri o autismo na vida adulta, e agora?
- jornal bilhões

- há 1 dia
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Foto: Michele Oliveira
Especialista alerta para a importância do suporte clínico para conquistar qualidade de vida
Sentir-se diferente desde a infância, enfrentar um esgotamento mental inexplicável após interações sociais simples ou lutar constantemente com a organização da rotina. Relatos como esses têm se tornado frequentes entre homens e mulheres que, após anos de incompreensão, descobrem que fazem parte do Transtorno do Espectro Autista (TEA) ou de outras condições neurológicas.
Esse movimento é impulsionado pelo conceito de neurodivergência. De acordo com a psicóloga Simone Rosa, especialista em neurodesenvolvimento e saúde mental, o termo descreve pessoas cujo funcionamento cerebral se desenvolve de forma diferente do padrão considerado típico pela sociedade.
“Não se trata de uma doença, mas de uma variação natural da diversidade humana. Entre as condições mais associadas estão o autismo, o TDAH, a dislexia, a discalculia, a dispraxia e a síndrome de Tourette”, esclarece.
O recente aumento de diagnósticos na maturidade reflete a ampliação do conhecimento científico e o debate crescente nas redes sociais. No entanto, muitas pessoas questionam por que essas descobertas não aconteceram na infância. A psicóloga explica que a falta de informação no passado e a capacidade humana de adaptação mascararam os sinais por décadas.
“Muitos adultos cresceram em uma época em que o conhecimento sobre neurodivergências era limitado e os critérios diagnósticos eram focados em crianças com características muito evidentes. Por causa disso, muitas pessoas desenvolveram estratégias inconscientes de adaptação para esconder suas dificuldades e se ajustar socialmente, o chamado masking.
Hoje, com maior conscientização social, esses adultos finalmente começam a reconhecer os sinais”, aponta Simone.Identificar a neurodivergência em adultos exige atenção a características que muitas vezes são confundidas com traços de personalidade.
“Os sinais variam muito conforme a condição de cada pessoa, mas os relatos mais comuns na rotina adulta incluem a fadiga social, que é o esgotamento profundo após interações simples , a sensação de inadequação desde a infância, a hipersensibilidade a barulhos ou luzes fortes, a necessidade intensa de rotina, o hiperfoco em interesses específicos e dificuldades com a gestão emocional”.
Com a popularização de vídeos sobre o tema no Instagram e no TikTok, cresceu também o número de pessoas que assumem o diagnóstico por conta própria. Simone Rosa faz um alerta rigoroso sobre esse comportamento.
“A principal orientação é evitar o autodiagnóstico definitivo baseado apenas em conteúdos da internet. Buscar conhecimento na rede é válido como um alerta inicial, mas a validação precisa ser realizada por profissionais capacitados. Receber uma avaliação adequada traz respostas para uma vida inteira de dúvidas, proporcionando um profundo sentimento de validação e o direcionamento terapêutico correto”, adverte.
O diagnóstico de TEA na vida adulta é um processo estritamente clínico e detalhado. “Ele envolve uma avaliação minuciosa do histórico de desenvolvimento da pessoa, entrevistas e aplicação de instrumentos específicos. Os profissionais indicados para iniciar essa investigação são médicos psiquiatras, neurologistas e psicólogos especializados.
A avaliação neuropsicológica também contribui para compreender o perfil cognitivo do paciente”, afirma a psicóloga.Após a confirmação, o tratamento não visa mudar a essência do indivíduo. O foco passa a ser a melhora das condições diárias de vida.
“O suporte depende totalmente das necessidades individuais e pode incluir psicoterapia, orientação familiar e treinamento de habilidades sociais. É fundamental entender que o objetivo nunca é ‘normalizar’ ou moldar a pessoa para que ela se encaixe nos padrões da sociedade. O foco real é promover qualidade de vida, autonomia e bem-estar, respeitando as características de cada um”, defende Simone.
A adaptação pós-diagnóstico envolve também os círculos sociais e profissionais do adulto. Segundo a especialista, o ambiente externo desempenha um papel crucial no desenvolvimento do paciente.“O primeiro passo é buscar informação e compreender que o diagnóstico não muda quem a pessoa é, apenas oferece uma explicação para a sua trajetória.
A família contribui oferecendo acolhimento e respeito aos limites individuais. No ambiente de trabalho, adaptações simples fazem uma diferença gigante, como maior previsibilidade de tarefas, uma comunicação clara e sem ambiguidades, flexibilização de processos e respeito aos limites sensoriais do profissional”, conclui.


