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Do Nepal à Praia das Pedrinhas: dois alertas diferentes sobre um mesmo desafio, proteger a natureza antes que a conta chegue


Tragédia no Himalaia e realidade ambiental de São Gonçalo mostram, em escalas diferentes, a importância da prevenção, da preservação dos ecossistemas e da adaptação às mudanças climáticas

A milhares de quilômetros de São Gonçalo, uma tragédia ambiental de grandes proporções voltou a colocar o mundo diante de uma pergunta incômoda: até onde a humanidade está preparada para lidar com as transformações do planeta?


No dia 26 de agosto, uma inundação repentina atingiu a região fronteiriça entre o Nepal e o Tibete, depois do colapso de uma geleira acompanhado por uma enorme movimentação de gelo, rochas, neve e sedimentos. O fluxo atingiu rios e comunidades, destruiu pontes, estradas e estruturas e deixou centenas de mortos e desaparecidos. Especialistas ainda investigam todos os fatores envolvidos, mas o derretimento acelerado das geleiras e o aumento das temperaturas aparecem entre os elementos relevantes para compreender a crescente vulnerabilidade da região.


A tragédia foi descrita internacionalmente como uma espécie de “tsunami de lama”. Tecnicamente, porém, trata-se de uma inundação repentina associada a um fluxo de água e detritos, e não de um tsunami oceânico.


O Nepal não é São Gonçalo. O Himalaia não é a Baía de Guanabara. As causas físicas de uma inundação glacial são diferentes dos processos ambientais de uma região costeira.


Mas existe uma conexão que merece atenção: a necessidade de compreender os sinais da natureza, reduzir vulnerabilidades e agir antes que o risco se transforme em desastre.


E é justamente nesse ponto que a Praia das Pedrinhas entra nessa discussão.


O alerta que vem da Praia das Pedrinhas

Em São Gonçalo, a maré baixa revela uma paisagem que muitas pessoas observam sem perceber a complexidade ambiental existente sob seus pés.

Lama, barcos, mangue, sedimentos, canais de maré e resíduos podem ser vistos em uma mesma paisagem.


Para quem passa rapidamente pelo local, pode parecer apenas uma fotografia da Baía de Guanabara.


Para os pescadores, entretanto, aquele ambiente é muito mais do que uma paisagem.


É território de trabalho, fonte de alimento, espaço de reprodução de espécies e parte de uma cadeia ecológica da qual depende diretamente a pesca artesanal.


É por isso que o ativista ambiental Erivelton Lopes defende que a população precisa aprender a observar a natureza também pela perspectiva de quem convive diariamente com ela.


“O pescador vê coisas que muitas vezes quem está de fora não consegue perceber. Ele conhece a maré, conhece o comportamento da água, percebe mudanças no ambiente e acompanha aquilo durante anos. O que o pescador está vendo de perto não é necessariamente o mesmo que as pessoas enxergam de longe”, afirma Erivelton.


Manguezal não é simplesmente lama


Um dos principais erros na percepção ambiental dos manguezais é enxergá-los como áreas sem utilidade quando a maré recua.


O contrário é verdadeiro.


O Ministério do Meio Ambiente define os manguezais como ecossistemas fundamentais para a biodiversidade, para a pesca, para a proteção da costa e para o enfrentamento das mudanças climáticas.


O ProManguezal, política pública federal instituída pelo Decreto nº 12.045/2024, destaca que esses ambientes funcionam como áreas de reprodução e berçário de espécies, sustentam comunidades tradicionais e contribuem para a proteção costeira e para a captura e armazenamento de carbono.


Isso significa que proteger o manguezal não é simplesmente proteger árvores.


É proteger uma infraestrutura natural.


O mangue ajuda a sustentar cadeias alimentares, oferece abrigo para espécies, participa da ciclagem de nutrientes e possui importância direta para pescadores, marisqueiras e outras comunidades que dependem dos recursos costeiros.


As áreas úmidas também desempenham funções relacionadas ao ciclo da água, biodiversidade e regulação climática.


O pescador é também um observador ambiental


A experiência dos pescadores precisa ser incorporada às políticas públicas ambientais.


Quem trabalha diariamente em determinado território acumula conhecimento sobre as transformações daquele ecossistema.


Mudanças na presença de espécies, alterações na dinâmica das águas, aumento de resíduos, assoreamento, mudanças nas áreas de pesca e transformações na vegetação podem ser percebidas primeiro por quem está no ambiente todos os dias.


Erivelton Lopes defende que esse conhecimento tradicional não deve substituir o monitoramento científico, mas ser integrado a ele.


A ciência produz dados por meio de instrumentos, análises laboratoriais, imagens de satélite, séries históricas e monitoramento.


O pescador produz outro tipo de informação: a observação contínua do território.


Quando os dois conhecimentos são reunidos, a capacidade de compreender e antecipar problemas ambientais pode aumentar.


A Praia das Pedrinhas já recebeu ações de limpeza ambiental


A preocupação não é hipotética.


A própria Praia das Pedrinhas já foi alvo de ações de limpeza do manguezal. Em uma operação realizada pelo município, foram retirados mais de uma tonelada de resíduos sólidos inorgânicos, incluindo pneus, garrafas e outros materiais.


O episódio demonstra que o problema dos resíduos não é apenas uma questão estética.


O lixo que chega ao manguezal pode interferir na fauna, na vegetação, na circulação da água e na qualidade ambiental do ecossistema.


Por isso, políticas de limpeza precisam estar acompanhadas de prevenção, fiscalização, saneamento, educação ambiental e gestão adequada dos resíduos.


Limpar é necessário.


Mas impedir que o lixo chegue ao mangue é ainda mais importante.


Do desmatamento à mudança do clima


A discussão climática também precisa ser feita com responsabilidade.


Nem toda enchente, deslizamento ou evento extremo pode ser atribuído automaticamente às mudanças climáticas.


Cada ocorrência precisa ser analisada tecnicamente.


Porém, também é cientificamente estabelecido que as atividades humanas aumentaram significativamente a concentração de gases de efeito estufa na atmosfera e provocaram o aquecimento do planeta.


Esse aquecimento altera padrões climáticos e aumenta determinados riscos relacionados a ondas de calor, chuvas extremas, secas, derretimento de geleiras e outros fenômenos.


No caso do Nepal, especialistas apontam que o rápido derretimento de neve e gelo pode ter contribuído para a instabilidade que antecedeu a tragédia, embora a investigação sobre todos os fatores ainda esteja em andamento.


No Brasil, o desafio assume outras características.


Em uma cidade costeira como São Gonçalo, é necessário pensar simultaneamente em chuvas intensas, drenagem urbana, ocupação do solo, impermeabilização, conservação de áreas naturais, elevação do nível do mar, proteção dos manguezais, saneamento e gestão de resíduos.


O problema não começa quando a água entra na casa


Para Erivelton Lopes, um dos principais erros da sociedade é discutir meio ambiente somente depois que o desastre acontece.


Quando uma enchente invade uma residência, a população naturalmente cobra respostas do poder público.


Mas a prevenção começa muito antes.


Começa na preservação de uma árvore.


Na manutenção de uma área permeável.


Na proteção de um manguezal.


Na destinação correta do lixo.


Na fiscalização de ocupações irregulares.


No planejamento da drenagem.


No saneamento.


Na recuperação de áreas degradadas.


Na educação ambiental.


Na criação de sistemas de alerta.


E também na participação da própria população.


“Quando eu falo em proteger a natureza, muitas pessoas me tratam como maluco. Mas quando chega o calor intenso ou quando acontece uma enchente, essas mesmas pessoas querem culpar exclusivamente o poder público e se eximir da própria responsabilidade. Cuidar do meio ambiente, plantar e preservar não é coisa de maluco. É coisa de gente consciente”, afirma.


A responsabilidade é pública e coletiva


A Constituição Federal brasileira estabelece que todos têm direito a um meio ambiente ecologicamente equilibrado e atribui tanto ao Poder Público quanto à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo.


Isso significa que a responsabilidade ambiental não pode ser colocada exclusivamente sobre os governos.


O poder público possui obrigações fundamentais: planejamento, fiscalização, saneamento, licenciamento, proteção ambiental, infraestrutura, monitoramento, prevenção de riscos e políticas de adaptação.


Mas a sociedade também possui responsabilidades.


Não existe política ambiental eficiente quando uma parcela da população continua descartando resíduos em rios, canais, ruas e áreas de mangue.


Não existe prevenção climática eficiente quando áreas naturais são destruídas sem preocupação com as consequências.


E não existe preservação sustentável quando o meio ambiente só entra na pauta depois da tragédia.


O que Nepal e Praia das Pedrinhas ensinam?


A comparação não está na natureza dos fenômenos.


Está na lição da prevenção.


No Nepal, uma enorme massa de gelo, rocha, água e sedimentos desceu rapidamente pelos vales, deixando destruição pelo caminho. A tragédia demonstra como comunidades podem ficar vulneráveis quando eventos extremos atingem territórios expostos.


Na Praia das Pedrinhas, o alerta é silencioso.


Ele está no mangue.


Na água.


Nos sedimentos.


Nos resíduos.


Na pesca.


Na ocupação do território.


Nas mudanças ambientais percebidas pelos pescadores.


Na necessidade de preservar aquilo que muitas vezes parece não ter valor econômico imediato.


O desastre do Nepal é uma tragédia.


A Praia das Pedrinhas é um alerta.


Não precisamos esperar que o alerta se transforme em tragédia para começar a agir.


São Gonçalo pode transformar prevenção em política pública


O debate ambiental da Praia das Pedrinhas pode avançar para uma agenda permanente de resiliência climática.


Entre as medidas que podem ser discutidas estão:


- monitoramento contínuo da qualidade da água;

- acompanhamento dos sedimentos e da dinâmica do manguezal;

- recuperação de áreas degradadas;

- proteção da vegetação de mangue;

- combate ao descarte irregular de resíduos;

- fortalecimento da coleta e destinação adequada do lixo;

- educação ambiental permanente;

- participação dos pescadores no monitoramento do território;

- fiscalização ambiental integrada;

- planejamento urbano considerando riscos climáticos;

- melhoria da drenagem;

- preservação de áreas permeáveis;

- sistemas de alerta para eventos extremos;

- integração entre Meio Ambiente, Defesa Civil, Pesca, Urbanismo e demais órgãos públicos;

- elaboração de estratégias locais de adaptação às mudanças climáticas.


O próprio ProManguezal estabelece como eixos a conservação e recuperação dos manguezais, o uso sustentável dos recursos naturais e a redução das vulnerabilidades socioambientais associadas às mudanças climáticas.


Ou seja, a direção das políticas públicas já está estabelecida.


O desafio é transformar princípios em ações permanentes no território.


A natureza não está se vingando. Está respondendo.


Erivelton Lopes considera que a sociedade precisa abandonar a ideia de que proteção ambiental é uma pauta de pessoas “alarmistas”.


“A natureza não está se vingando do ser humano. Ela está respondendo às condições que nós mesmos ajudamos a criar. Quando destruímos, poluímos, desmatamos e ocupamos áreas vulneráveis, aumentamos os riscos. A prevenção precisa acontecer antes da tragédia, porque depois o custo humano, ambiental e financeiro é muito maior”, afirma.


O alerta que chega do Nepal não deve ser usado para criar pânico.


Deve ser usado para ampliar a consciência.


E o que se observa na Praia das Pedrinhas não deve ser tratado como um problema distante ou exclusivamente ambiental.


É também uma questão de saúde pública, segurança alimentar, economia, pesca, urbanismo, infraestrutura, proteção costeira e qualidade de vida.


A natureza já apresenta sinais.


A questão é saber se a sociedade vai continuar ignorando esses sinais até que eles se transformem em desastre.


Do Himalaia à Baía de Guanabara, a mensagem é a mesma: prevenir é mais inteligente do que reconstruir. Preservar é mais barato do que reparar. E cuidar da natureza não é radicalismo, é responsabilidade.

 
 
 

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