Empresas aceleram adoção de IA, mas uso sem estratégia pode ampliar riscos e custos

A popularização das ferramentas de Inteligência Artificial está transformando a rotina das empresas e permitindo que profissionais de diferentes áreas desenvolvam aplicações e automatizem processos sem depender diretamente das equipes de tecnologia. No entanto, essa democratização também traz desafios. Segundo professor Lacier Dias, empresário, especialista em estratégia, tecnologia e transformação digital, doutorando pela Fundação Dom Cabral e fundador e CEO da B4Data, a adoção da IA sem planejamento, governança e participação da área de TI pode criar vulnerabilidades de segurança, elevar custos e resultar em soluções que pouco contribuem para o desempenho do negócio.
“Plataformas que permitem criar pequenos sistemas por meio de IA reduziram a barreira técnica para o desenvolvimento de aplicações. O problema é que muitos desses projetos nascem sem preocupações essenciais, como infraestrutura, escalabilidade, proteção de dados, controle de acesso e integração com os sistemas da empresa. Em muitos casos, as aplicações ficam hospedadas no próprio computador do colaborador, sem condições de atender um número maior de usuários ou garantir a segurança das informações”, avalia Lacier.
O professor observa que esse movimento é impulsionado, principalmente, por gestores de áreas como marketing, Recursos Humanos, jurídico e finanças, que identificam oportunidades de automatização, mas nem sempre possuem conhecimento sobre arquitetura de software ou cibersegurança. “Como consequência disso, equipes de tecnologia acabam sendo acionadas posteriormente para reconstruir praticamente todo o projeto, corrigindo falhas que poderiam ter sido evitadas desde o início”, aponta.
O especialista ressalta ainda que a IA deve ser utilizada como aceleradora do desenvolvimento, não como substituta do planejamento técnico. “O modelo mais eficiente é reunir profissionais experientes do negócio e da tecnologia para definir conjuntamente a solução, utilizando a IA para acelerar etapas de construção, mas mantendo a arquitetura, o banco de dados, a segurança e a infraestrutura sob responsabilidade da equipe técnica.” Até porque isso impacta diretamente em outro ponto importante: o custo.
Embora exista a percepção de que a IA reduz investimentos, a realidade encontrada em diversos projetos é diferente. “Além das assinaturas das plataformas, há gastos com treinamento, licenças, hospedagem, manutenção e horas de profissionais especializados. Em alguns casos, os investimentos chegam à casa das centenas de milhares de reais antes mesmo de a empresa comprovar que a solução gera ganhos efetivos de produtividade.”
Para Lacier, muitas organizações acabam substituindo processos simples, como planilhas já consolidadas, por sistemas visualmente mais modernos, mas que oferecem poucas melhorias práticas. “Sem indicadores claros de retorno, a tecnologia passa a representar um custo adicional, e não uma vantagem competitiva.” Nesse sentido, a IA representa uma das maiores oportunidades de transformação das empresas nos próximos anos, desde que sua implantação seja conduzida com estratégia, governança e participação ativa das equipes de tecnologia. Mais do que criar aplicações rapidamente, o desafio passa a ser construir soluções seguras, escaláveis e capazes de gerar valor real para o negócio.







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