Inadimplência recorde e renegociações em alta: onde está o verdadeiro problema?
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- há 14 horas
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Especialista alerta que acordos sem orientação financeira podem ampliar ciclos de endividamento
O Brasil registrou em março de 2026 o maior índice de endividamento familiar de sua história: 80% das famílias têm alguma dívida, contra 77% no mesmo período do ano anterior, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), da Confederação Nacional do Comércio (CNC). O dado reflete um avanço contínuo e preocupante, impulsionado pela combinação de juros elevados, instabilidade econômica e acesso facilitado ao crédito, fatores que, juntos, criaram um ambiente propício ao desequilíbrio das finanças pessoais em todas as faixas de renda.
O cenário macroeconômico amplia a preocupação. Com a Selic em 15%, tensões geopolíticas no Oriente Médio e pressão nos preços do petróleo, o ritmo de redução dos juros segue mais lento, elevando o custo do crédito e dificultando a reorganização orçamentária das famílias.
No sistema bancário, os impactos já aparecem de forma expressiva. Itaú, Bradesco, Santander e Banco do Brasil destinaram juntos R$ 44,8 bilhões em provisões para devedores duvidosos no primeiro trimestre de 2026, alta de 33% em relação ao mesmo período do ano anterior, segundo os balanços divulgados pelas instituições. O Banco do Brasil foi o mais afetado, com R$ 18,9 bilhões em custo de crédito no trimestre, crescimento anual de 86%, pressionado principalmente pela inadimplência rural, impactada pela volatilidade das commodities e por eventos climáticos extremos.
Nesse contexto de pressão sobre consumidores e instituições financeiras, programas de renegociação ganharam ainda mais relevância. O governo lançou uma nova versão do Desenrola, voltada à regularização de dívidas de até R$ 15 mil com descontos de até 90%, enquanto plataformas privadas seguem movimentando grandes volumes de acordos digitais. Mas ampliar o acesso à negociação, por si só, não garante que o problema seja resolvido de verdade.
"Facilitar o acordo é importante, mas recuperar crédito exige compreender a realidade daquele devedor. Sem orientação e sem uma tratativa construída de forma sustentável, o risco de retorno rápido à inadimplência é muito alto", afirma Rodrigo Mandaliti, presidente do IGEOC.
Segundo o especialista, esse é o diferencial das empresas especializadas em recuperação de crédito em relação aos modelos baseados exclusivamente em plataformas de autoatendimento. "Uma negociação efetiva não significa apenas limpar o nome. É construir uma solução que realmente caiba no orçamento, considerando o momento financeiro, a capacidade de pagamento e até o comportamento de consumo daquela pessoa. Quando isso não acontece, cria-se um ciclo contínuo de renegociação e retorno à dívida", destaca.
A expansão das plataformas digitais trouxe agilidade e ampliou o alcance das tratativas, mas também evidenciou um desafio relevante: muitos devedores ainda tomam decisões sem compreender plenamente os juros, parcelas e impactos futuros. "Hoje existe uma facilidade muito grande para renegociar, parcelar ou contratar crédito, mas isso nem sempre vem acompanhado de educação financeira. Muitas vezes, o indivíduo resolve uma urgência imediata sem reorganizar sua vida financeira e acaba retornando rapidamente ao mesmo ciclo", explica Mandaliti.
O setor de recuperação de crédito vem assumindo um papel cada vez mais estratégico por atuar de forma personalizada e consultiva. "O crédito precisa voltar a cumprir seu papel como ferramenta de desenvolvimento, e não apenas de sobrevivência momentânea. Isso exige escuta, análise de perfil e construção de acordos sustentáveis, que permitam ao consumidor recuperar sua capacidade financeira de forma consciente", conclui.
O avanço do endividamento familiar para níveis históricos e o crescimento expressivo das provisões bancárias revelam que o Brasil não tem um problema de acesso à renegociação, mas de qualidade na recuperação. E resolver isso exige mais do que uma plataforma disponível.


