Investigadores disseram que acusados de matar policial civil em Niterói tinham ligação com Adilsinho, mas apuração ainda não descobriu motivação do crime
Depoimentos prestados no processo que levará a júri popular quatro acusados da morte do policial civil Carlos José Queiroz Vianna, assassinado no ano passado em Piratininga, em Niterói, apontaram uma ligação dos suspeitos com o contraventor Adilson Oliveira Coutinho Filho, o Adilsinho. Apesar disso, os próprios policiais ouvidos no caso afirmaram que a investigação não conseguiu identificar a motivação para a execução do agente.
O caso voltou a ganhar destaque nesta terça-feira após a Justiça decidir que quatro réus serão submetidos a júri popular. Entre eles estão dois ex-policiais militares. A decisão manteve os quatro acusados no processo pelo assassinato.
Um dos policiais ouvidos na investigação afirmou que os suspeitos tinham vínculo com Adilsinho e apontou Duque de Caxias como uma das áreas de atuação do grupo ligado ao contraventor.
“Eles têm um pé no cigarro sim. Eles possuem vínculo com Adilsinho. Duque de Caxias é o reduto do Adilsinho, por consequência dos seus comparsas. Eles têm Duque de Caxias como reduto deles”, afirmou o agente.
Outro policial, porém, disse que nenhuma evidência encontrada durante a investigação conseguiu explicar por que Carlos José foi escolhido como alvo.
“Não foi vista ali relação de amizade ou de qualquer outra intenção ali com os autores e nada também que indicasse envolvimento da vítima com qualquer atividade ligada aos autores. Então, a princípio, não foi observada motivação. Nem através de testemunhas, nem através de disque-denúncia. Nenhum canal que pudesse indicar essa ligação da vítima para com os autores”, declarou.
Um terceiro policial civil também fez uma ressalva sobre a suposta ligação dos investigados com Adilsinho. Segundo ele, havia informações sobre essa relação, mas não elementos técnicos suficientes para comprová-la.
“Nessa investigação nós não temos nada que comprove o envolvimento com o Adilsinho. Tive notícias de envolvimento entre eles, agora, notícias de uma maneira informal. Eu não tenho, tecnicamente, como comprovar isso. Sei que Duque de Caxias é uma das localidades vinculadas a essa organização criminosa”, afirmou.
Kiko admite relação próxima com Adilsinho
Um dos investigados, conhecido pelo vulgo Kiko, também falou durante o processo sobre sua relação com Adilsinho. Ele foi impronunciado pelo crime contra o policial, mas a investigação identificou vínculos entre ele e um dos envolvidos no homicídio, inclusive por meio de ligações telefônicas realizadas na época do assassinato.
Kiko admitiu que conhecia Adilsinho desde a época em que ambos frequentavam Duque de Caxias e relatou ter mantido contato próximo com o contraventor posteriormente.
Segundo seu depoimento, ele chegou a trabalhar no Barra Futebol Clube, então ligado a Adilsinho, e afirmou que frequentava a casa do contraventor em Jacarepaguá, onde chegou a almoçar diariamente.
Kiko negou, entretanto, ter prestado serviços pessoais para Adilsinho ou ter qualquer envolvimento com o comércio ilegal de cigarros. Também negou possuir um veículo Onix branco e afirmou que nenhuma arma ou outro material ilícito foi encontrado durante buscas realizadas pela polícia.
Armas ligam crime a outros dois assassinatos
Além da relação dos investigados com Adilsinho, a investigação encontrou outro elemento de grande peso: armas apreendidas com os suspeitos foram relacionadas a outros dois homicídios investigados no estado.
Segundo o Ministério Público, duas armas teriam sido utilizadas nas mortes de Cristiano de Souza, em 2023, e Antônio Gaspazianne Mesquita Chaves, em 2024.
Cristiano era dono de uma tabacaria e foi assassinado em um caso investigado pela Delegacia de Homi cídios da Capital no contexto da atuação da chamada máfia dos cigarros ilegais.
Já Antônio Gaspazianne foi morto dentro do bar Parada Obrigatória, em Vila Isabel, em uma investigação relacionada à disputa envolvendo dinheiro de máquinas caça-níqueis.
Nos dois casos, a Polícia Civil investiga a participação de Adilsinho, apontado por investigadores como uma das lideranças do esquema de cigarros ilegais no Rio.
Policial chegou a ser monitorado antes de morrer
Carlos José Queiroz Vianna era chefe de investigações da 29ª DP (Madureira) e, segundo a investigação, chegou a ser monitorado pelos suspeitos em seu próprio local de trabalho antes de ser assassinado.
Apesar disso, os investigadores afirmaram não ter encontrado uma explicação concreta para a execução.
A mulher do policial relatou em depoimento o momento em que recebeu a notícia da morte do marido. Ela havia saído para trabalhar quando recebeu uma ligação desesperada da filha, que estava em casa com o pai.
“Eu tinha saído para trabalhar. A minha filha me ligou desesperada, porque ela estava sozinha em casa com ele. Ela gritava dizendo: ‘Mãe, mataram meu pai’”, contou.
Segundo ela, Carlos não havia relatado qualquer ameaça ou preocupação antes do assassinato.
“A vítima não relatou nenhum tipo de preocupação ou ameaça. Ele saía com a gente sempre desarmado”, afirmou.







Comentários