O Corpo Dourado da Vitória

Ariete Angotti, modelo com nanismo. Foto: Kica de Castro. Maquiagem: André Lima
Quando uma sociedade pensa em números de pessoas com deficiência, surge a expressão: “são bilhões de pessoas”. Mas, antes de qualquer estatística, existem seres humanos, com corpos plurais e histórias que não cabem na régua estreita de ninguém.
Durante muito tempo, a cultura visual construiu uma humanidade de catálogo: alguns corpos destinados à luz; outros, condenados ao esquecimento do enquadramento.
No Brasil, o Censo Demográfico 2022 dimensiona essa presença: entre os brasileiros de 2 anos ou mais, cerca de 14,4 milhões têm deficiência, o equivalente a 7,3% dessa população. São 8,3 milhões de mulheres e 6,1 milhões de homens. Pessoas que não são minoria ou exceção, fazem parte da sociedade.
É nesse intervalo entre a dimensão da população e a dimensão do olhar que nasce a sessão fotográfica “O Corpo Dourado da Vitória”. A questão não é quem pode ser fotografado, mas quem foi considerado digno de ocupar o imaginário coletivo quando o assunto é beleza. Por décadas, a beleza foi apresentada como uma língua de vocabulário limitado. Certos corpos falavam por todos. Os demais, quando apareciam, eram vistos como curiosidade ou exemplo de superação.
Essa exclusão produz uma violência cultural: a criança que procura uma imagem semelhante à sua e não encontra; o adulto que aprende que determinados espaços não foram imaginados para ele; a pessoa que se acostuma a ser ausência antes mesmo de perceber que foi excluída.
É nesse ponto que o dourado criado por André Lima ganha força. Ele não pinta os corpos para torná-los belos. Apenas reconhece a beleza que sempre esteve ali. A cor dos troféus e dos lugares mais altos abandona a lógica do pódio. Sobre a pele, deixa de significar superioridade e passa a significar luz. Não é uma medalha concedida a quem venceu algo. É a afirmação de que aquela presença já tem valor antes de qualquer conquista.
Entre as modelos está Ariete Angotti, mulher com nanismo, que resume essa experiência: “Quando eu era mais jovem, quase não encontrava imagens em que pudesse me reconhecer. Hoje vejo pessoas com deficiência ocupando espaços que antes pareciam distantes. Esta sessão fala sobre pertencimento e sobre a importância de sermos vistos como somos.”
Ser visto como se é talvez seja uma das afirmações mais simples e mais revolucionárias de todos os tempos.
“O Corpo Dourado da Vitória” não cria outro padrão, apenas desloca o centro. Porque toda vez que um padrão é criado, alguém fica do lado de fora.
Diante dos números do Censo 2022, a pergunta já não é por que essas pessoas precisam aparecer, mas: quantas vezes ainda precisarão ser excluídas para finalmente serem reconhecidas como pessoas belas?






Tenho muito orgulho de trabalhar com a fotógrafa Kica de Castro e poder chamar ela de amiga. Um trabalho que mudou toda uma cultura brasileira.
Parabéns pelo lindo trabalho de inclusão.