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Quando a cor da pele ainda define quem vive e quem morre

31 de ago.
2 min de leitura

Até quando a cor da pele continuará determinando quem tem mais chances de perder a vida em uma intervenção policial no Brasil? Quantos relatórios ainda precisarão ser publicados para que números tão alarmantes deixem de ser tratados como estatísticas e passem a provocar mudanças efetivas? A cada novo levantamento, a realidade expõe um cenário que insiste em se repetir: a juventude negra permanece sendo o principal alvo da violência letal do Estado.

A sétima edição do relatório “Pele Alvo: entre racismo e letalidade, o amanhã”, divulgada pela Rede de Observatórios da Segurança, revela a dimensão racial e geracional da violência policial no Brasil. Em 2025, foram registradas 4.330 mortes decorrentes de intervenções policiais nos nove estados monitorados, um aumento de 6,4% em relação ao ano anterior. Do total, 2.804 vítimas — 64,8% — tinham até 29 anos, enquanto 312 eram crianças e adolescentes de 0 a 17 anos.

O recorte racial torna o cenário ainda mais grave: entre as vítimas cuja raça ou cor foi informada, 86,3% eram pessoas negras, o equivalente a 3.104 mortes. O levantamento, realizado a partir de dados fornecidos pelas secretarias estaduais de Segurança Pública por meio da Lei de Acesso à Informação, evidencia a permanência de um padrão de violência que atinge de forma desproporcional a população negra, sobretudo jovens moradores de periferias e favelas.

Para o professor, pesquisador, babalawô e militante histórico dos direitos humanos Prof. Dr. Ivanir dos Santos, os dados não surpreendem, mas escancaram uma realidade que o movimento negro denuncia há décadas.

"O Brasil não pode continuar naturalizando esses números. Quando a maioria absoluta das vítimas tem cor, idade e endereço, não estamos diante de coincidências, mas da expressão do racismo estrutural que atravessa nossas instituições. Cada jovem negro morto representa um projeto de vida interrompido, uma família devastada e um fracasso coletivo da sociedade brasileira. Segurança pública não pode ser confundida com extermínio. Defender direitos humanos é defender o direito à vida, à dignidade e à cidadania de todos os brasileiros", afirma Ivanir dos Santos.

Ao longo de mais de quatro décadas de atuação na defesa dos direitos humanos e no enfrentamento à intolerância religiosa, Ivanir tem chamado atenção para a necessidade de políticas públicas que conciliam combate à criminalidade com respeito aos direitos fundamentais. Para ele, enfrentar a violência exige reconhecer que a desigualdade racial continua sendo um dos maiores desafios do país.

Mais do que apresentar indicadores, os levantamentos lançam uma pergunta que permanece sem resposta: por que, em pleno século XXI, ser jovem, negro e morador da periferia ainda significa correr um risco muito maior de morrer em uma ação policial? Enquanto essa pergunta continuar ecoando sem respostas concretas, os números seguirão denunciando uma tragédia que o Brasil insiste em adiar.

 
 
 

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